quinta-feira, 1 de novembro de 2012




Lousville, Kentucky • 27 de Novembro, 2009.
Um tiro soou alto. Um amplo portão se escancarou. O bater de cascos de cavalos ecoou ao redor da
pista como um massivo soar de trovão.
"E eles se foram!"
Sophia Bliss ajustou a aba larga do seu chapéu de penas. Era uma cor de malva mate, vinte e sete
polegadas de diâmetro, com um véu de chiffon pendurado. Largo o bastante para fazê-la parecer
uma entusiasta por corridas de cavalos, não tão berrantes a ponto de chamar indevida atenção.
Três chapéus haviam sido especialmente encomendados do mesmo modista em Hilton Head para a
corrida aquele dia. Um - gorro amarelo manteiga - que cobria a cabeça branco neve de Srta Sophia,
enquanto ela aproveitava seu sanduíche de carne enlatada. O outro chapéu que parecia um mar de
espuma verde com uma enorme fita de cetim de bolinhas coroava a cabeleira negra de Vivian Sole,
que se sentava parecendo enganosamente acanhada com suas mãos cobertas por luvas brancas que
se cruzavam sobre seu colo à direita da Srta Sophia.
"Glorioso dia para uma corrida," Lyrica falou. Aos 136 anos de idade, ela era a mais nova dos
anciãos de Zhsmaelim. Ela limpou uma mancha de mostarda do canto da sua boca. "Você consegue
acreditar que é minha primeira vez nas pistas?"
"Shhh," Sophia chiou. Lyrica era uma brincalhona. O dia de hoje não era nada sobre cavalos, mas
sim sobre encontros clandestinos de grandes mentes. E daí se a outra grande mente não havia
aparecido ainda? Eles estariam aqui. Naquela perfeita locação neutra que foi passada adiante em
convites de letras douradas que Sophia havia recebido de um desconhecido remetente. Os outros
estariam ali para se revelarem e criarem um plano de ataque juntos.
A qualquer minuto agora. Ela esperava
"Adorável dia, adorável esporte," Vivina falou secamente. "Uma pena que nosso cavalo nessa
corrida não correr tão facilmente em círculos como aliados. Não é mesmo, Sophia? É difícil apostar
aonde a Luce puro sangue vai acabar."
"Eu disse shhhh," Sophia sussurrou. "Morda sua arrogante língua. Há espiões por toda a parte."
"Você é paranoica." Vivina falou, fazendo Lyrica soltar uma risada alta.
"Eu sou o que resta." Sophia falou.
Costumavam ser tantos mais - vinte e quatro Anciões no auge do Zhsmaelim. Um grupo de mortais,
imortais e alguns transeternos, como a própria Sophia. Uma aliança de conhecimento e paixão e fé
com um único objetivo: restaurar o mundo ao seu estado pré queda, aquele breve, glorioso
momento antes da queda dos anjos. Para o melhor ou para o pior. Foi escrito, claro como o dia, no
código que eles escreveram juntos e cada um deles assinou: Para o melhor ou pior.
Porque realmente, podia ir para qualquer um dos lados.
Cada moeda tinha dois lados. Cara e coroa. Luz e escuridão. Bom e - Bem, o fato dos outros
Anciãos não terem se preparado para ambas as opções não era culpa de Sophia. Era, no entanto, sua
cruz para carregar quando um por um manaram avisos de suas desistências. Seus propósitos haviam
ficado sombrios demais. Ou: Os princípios da Organização haviam caído. Ou: Os Anciãos haviam
se afastado demais do seu código original. A primeira leva de cartas chegou previsivelmente dentro
de uma semana após o incidente com a garota Pennyweather. Eles não conseguiam suportar aquilo
que eles clamavam ser a morte de uma pequena e insignificante criança. Um momento descuidado
com a adaga e de repente os Anciões estavam correndo assustados, todos eles temendo a ira da
Escala.
Covardes.
Sophia não temia a Escala. Eles eram encarregados de cuidar dos caídos e não dos certos. Anjos de
segundo escalão tais como Roland Sparks e Arriane Alter. Contanto que um não estragasse o céu,
aquele estava livre para pender um pouco. Tempos desesperados praticamente imploravam por isso.
Sophia quase ficado vesga lendo as desculpas esfarrapadas dos outros Anciões. Mas mesmo que ela
quisesse - o que ela não queria - não havia nada a ser feito.
Sophia Bliss - bibliotecária de escola que somente havia servido de secretária para banca do
Zhsmaelim - estava agora no mais alto ranking social entre os Anciões. Restava somente doze deles.
E nove não podiam ser confiados.
Então isso deixava três deles aqui hoje em seus enormes chapeis pastel, colocando falsas apostas
nas corridas. E esperando. Era patético, as profundezas que eles haviam afundado.
Uma corrida chegou ao fim. O anunciante de estatísticas anunciou no auto falante os ganhadores e
as probabilidades para a próxima corrida. Pessoas bem vestidas e bêbados ao redor deles festejaram
ou se afundaram ainda mais em seus assentos.
E uma garota, aproximadamente dezenove anos, com um rabo de cavalo loiro platinado, casaco
marrom e espessos óculos escuros subiu vagarosamente os degraus de alumínio até os Anciões.
Sophia enrijeceu. Por que ela estaria aqui?
Era quase impossível dizer em qual direção a garota estava olhando, e Sophia estava tentando muito
não ficar encarando. Não que isso importasse, a garota não seria capaz de vê-la. Ela era cega. Mas
então - A Excluída acenou com a cabeça uma vez em direção à Sophia. Ah sim - aqueles tolos
conseguiam ver o queimar da alma de uma pessoa. Era tênue, mas a força vital de Sophia devia
ainda estar visível.
A garota se sentou na fileira vazia em frente aos Anciãos, ficando de frente para as pistas sacudindo
um ticket de aposta de cinco dólares embora seus olhos cegos fossem incapazes de lê-lo.
"Olá." A voz da Excluída era monótona. Ela não se virou para trás.
"Eu realmente não sei por que você está aqui." Miss Sophia falou. Era um dia úmido de Novembro
em Kentucky, mas uma camada de suor havia se formado através da sua testa. "Nossa colaboração
acabou quando o seu consorte falhou em reaver a garota. Nenhuma quantidade de baboseira que
vier daquele se proclama Philip irá mudar nosso pensamento." Sophia se inclinou para a frente,
próximo à garota, e franziu o nariz. "Todos sabem que os Excluídos não são confiáveis - "
"Nós não estamos aqui à negócios com vocês," a Excluída falou, olhando para frente. "Você não foi
nada além de um receptáculo para nos levar para perto de Lucinda. Nós continuamos
desinteressados em 'colaborar' com vocês."
"Ninguém mais se importa com a organização de vocês hoje em dia." passos nas arquibancadas.
O garoto era alto e magro, com a cabeça raspada e um casaco de chuva para combinar com o da
garota. Os óculos escuros dele eram do tipo feitos de plástico barato encontrados próximos às
baterias em uma farmácia.
Philip se sentou na arquibancada ao lado de Lyrica Crisp. Assim como a garota Excuida, ele não se
virou para olhar para elas quando falou.
"Não estou surpreso em encontrá-la aqui, Sophia." Ele abaixou os óculos escuros através do seu
nariz revelando dois olhos brancos e vazios. "Apenas desapontado por você não achar que poderia
me contar que também foi convidada."
Lyrica engasgou com as horríveis extensões brancas por trás dos óculos. Até Vivina perdeu sua
compostura e se encolhei para trás. Sophia borbulhava por dentro.
A garota Excluída ergueu um cartão dourado - o mesmo convite que Sophia recebeu - preso entre os
dedos dela.
"Eu recebi isso." Só que aquele parecia que estava escrito em Braille. Sophia esticou a mão
querendo ter certeza, mas com um movimento rápido, o convite desapareceu dentro do casaco da
garota.
"Olha aqui, seu pilantrinha. Eu marquei suas starchots com o emblema dos Anciões. Você trabalha
para mim - "
"Correção," Philip falou. "Os Excluídos trabalham para ninguém além deles mesmos."
Sophia assistiu ele esticar levemente o pescoço, fazendo de conta que seguia um cavalo ao redor das
pistas. Ela sempre achou estranho o modo como eles davam a impressão de que podiam enxergar.
Quando todo mundo sabia que, com um estalar de dedos, ele atingiu a muitos deles com a cegueira
"Uma pena que você fizeram um trabalho tão ruim em capturar ela." Sophia sentiu sua voz mais alta
do que ela sabia que deveria estar, chamando a atenção de um casal idoso do outro lado da
arquibancada. "Era para nós estarmos trabalhando juntos," ela repreendeu, "caçar ela e - e vocês
falharam."
"Não teria feito diferença de um jeito ou de outro."
"Como é que é?"
"Ela ainda estaria perdida no tempo. Sempre foi o destino dela. E os Anciãos ainda estariam à
perigo. Isso é seu."
Ela queria se avançar nele, queria estrangular ele até aqueles grandes olhos brancos saltassem para
fora. Sua adaga parecia que estava queimando através da sua bolsa de couro sobre o seu colo. Se ela
ao menos tivesse uma starshot. Sophia estava se erguendo do seu acento na arquibancada quando
uma voz veio por detrás deles.
"Por favor fique sentada." a voz ecoou. "Foi dado início à essa reunião, agora."
A voz. Ela sabia de primeira quem era. Calma e autoritária. Absolutamente humilhante. Fez as
arquibancadas tremerem.
Os mortais por perto não notaram nada, mas uma onda de calor subiu atrás do pescoço de Sophia.
Pinicou através do seu corpo a amortecendo. Aquele não era nenhum medo comum. Era uma terror
incapacitante e de fazer seu estômago doer. Ela ousava se virar para trás?
A mais sutil espiada pelo canto dos seus olhos revelou um homem em terno preto feito sob medida.
Seus cabelos escuros estavam cortados curtos embaixo do seu chapéu negro.
A face, gentil e atraente, não era particularmente memorável. Rosto barbeado, nariz reto, com olhos
castanhos que pareciam familiares. Ainda assim Miss Sophia nunca o havia visto antes. E ainda
assim ela sabia quem ele era, sabia no centro de seus ossos.
"Onde está Cam?" A voz de trás perguntou. "Foi enviado um convite para ele."
"Provavelmente brincando de Deus dentro dos Anunciadores. Assim como o resto dele," Lyria
deixou escapar. Sophia bateu nela.
"Brincando de Deus, você disse?"
Sophia procurou por palavras que concertasse uma gafe daquelas. "Muitos dos outros seguiram
Lucinda de volta no tempo," ela falou eventualmente. "Incluindo dois Nefilins. Nós não temos
certeza de quantos outros."
"Ouso perguntar," a voz falou, repentinamente gelada, "Por que nenhum de vocês se prontificaram
para ir atrás dela?"
Sophia lutou para engolir, para respirar. Seus movimentos mais intuitivos ficaram congelados pelo
pânico. "Nós não podemos exatamente, bem ,,, Nós não temosa capacidade para - "
A garota Excluída a interrompeu. "Os Excluídos estão no processo de - "
"Silencio," a voz comandou. "Poupe suas desculpas. Elas não importam mais, assim como vocês
não importam mais."
Por um longo tempo, o grupo dele permaneceu quieto. Era aterrorizante não saber como agradá-lo.
Quando ela finalmente falou, sua voz era mais suave, mas não menos letal. "Muita coisa em risco.
Eu não posso deixar mais nada à sorte."
Uma pausa.
Então suavemente, ele falou. "O tempo para eu tomar as rédeas chegou."
Sophia mordeu seu engasgo em dois para esconder deu terror. Mas ela não conseguia parar os
tremores do seu corpo. O envolvimento direto dele? Realmente, era o prospecto mais aterrorizante.
Ela não podia imaginar trabalhar para ele -
"O resto de vocês vai ficar fora disso," ele falou. "Isso é tudo."
"Mas - " Foi um acidente, mas a palavra escapou os lábios de Sophia. Ela não podia retirar o que
havia falado. Mas todas as suas décadas de trabalho. Todos os planos dela. Seus planos!
O que veio à seguir foi um longo rosnado de fazer a terra tremer.
Reverberou através das arquibancadas, parecendo viajar ao redor da pista de corrida em menos de
um segundo. Sophia se encolheu. O barulho parecia quase bater de encontro à ela, através da sua
pele e até seu centro mais profundo. Ela sentiu como se seu coração tamborilado em pedaços.
Lyrica e Vivina ambas se pressionaram um contra a outra, olhos fechados. Até os Excluídos
tremeram.
Justo quando Sophia pensou que o som nunca fosse acabar, que finalmente seria sua morte, o rugido
sumiu até ficar tudo em extremo silencio.
Por um momento.
Tempo o bastante para olhar ao redor e ver que as outras pessoas nas pistas de corrida não haviam
escutado nada.
No ouvido dela ele sussurrou, "Seu tempo nesta empreitada acabou. Não se atreva a ficar no meu
caminho."
Do lado de baixo, um tiro ressoou alto. O amplo portão se escancarou de novo. Só que desta vez, o
bater dos cascos dos cavalos contra a terra soava como praticamente nada, como a mais leve chuva
caindo nas copas das árvores.
Antes que os cavalos de corrida tivessem atravessado a linha de chegada, a figura atrás deles havia
sumido, deixando somente a marca cor de carvão dos seus passos sobre as tábuas das
arquibancadas.